Fora da caixinha: Eu, 16 anos e anoréxica

Olá, gurias! Tudo em ordem? Comigo sim...

O post de hoje é com certeza "fora da caixinha", pois é algo que nunca falei por aqui rsrs. Agora, devem estar se perguntando, por que chamar de "fora da caixinha" um assunto tão sério? 


Vamos às explicações: a chamada "fora da caixinha" foi uma escolha para Blogagem Coletiva produzido por um grupo de blogueiras (os) que participo, o Rotaroots, grupo esse que tem por objetivo retomar os velhos tempos da blogosfera - quando os posts eram muito mais do que simples publieditoriais e mendigações por "curtir". 

A ideia principal é que cada blogueiro escolha algo que nunca comentou antes antes no blog e conte nesse momento... Como eu nunca falei a respeito da minha fase anoréxica (como foi e como superei), aqui estamos nós!

Agora, sim, vamos ao assunto: Eu, 16 anos e anoréxica 

Eu sempre fui magricela e desajeitada. A típica "Olívia Palito" da turma. Odiava o fato de ser assim e não usava por nada no mundo uma roupa apertada ou coisa do gênero. Era apaixonada por agasalhos soltos, normalmente MUITO maiores do que seria meu tamanho certo, vestidos longos estilo hippie e saias com blusinhas estilo "ciganinha". Aos 14 anos, resolvi - como adolescente rebelde sem causa que era - que queria ir para um convento. Lá fiquei por um ano e meio, tempo que engordei e cresci sem parar. Não cheguei a gorda, com sobrepeso ou algo do gênero, apenas fiquei com vinte quilos a mais do que era acostumada. Fui de magricela desajeita, para encorpadinha. 

Enquanto estava no convento, não me dei conta de tal mudança. Achava que estava tudo normal, afinal, as refeições eram  balanceadas e NUNCA comia bobagem alguma. O choque veio, quando sai da instituição religiosa, na metade do ano de 2001. 

Ao chegar na minha cidade natal, Toledo, de onde havia saído em 2000, com 14 anos, infelizmente tinha menos amigos do que quando fui para o convento. Além disso, eu estava diferente: cabelos sem nada de tintura, desacostumada a usar as roupas que todas as meninas usavam e ainda, com 20kg a mais. 

As roupas que usava antes de sair de casa, já praticamente nada me serviam - a não ser os tais agasalhos maiores do que eu rsrsr  Para piorar, estava mais "desantenada" do que qualquer outro ser. Não tinha ideia do que usar, e nem vontade de descobrir o que ficaria bom. 

Mês de julho chegou ao final e eis que os problemas começam... comecei a estudar num colégio onde não conhecia ninguém. Como continuava sendo a NERD de sempre, isso não foi tão terrível, logo me dei bem com os professores e em pouco tempo, fiz amizade com a Marceline (outra NERD, mas com algumas diferenças: linda e simpática rsrsr.) que certamente me ajudou um monte, pois passava boa parte do tempo do colégio com ela. 

Durante o mês de agosto desmaiei várias vezes. Meus pais e pessoas próximas percebendo que eu não andava "a Ana de outrora, sorridente, comilona e faladeira" começaram a observar de perto meus hábitos. Minha mãe me levou para fazer uma bateria de exames intermináveis e meu pai, tentava o tempo inteiro encontrar alternativas para eu comer mais. Eu só tinha vontade de chorar, e quando começava a comer, a fome logo passava. 

Simplesmente não sentia fome. (Foto: bezzia.com)
Primeiro, atribuímos que eu não estava comendo devido à mudança  de alimentação, horário de comida em relação aos hábitos que eu tinha tido nos últimos anos. E então, levou algum tempo para todos perceberem que a anorexia estava fazendo parte do meu cotidiano. 

Na mesma época, comecei a fazer acupuntura 3 vezes por semana. E, foi graças a Drª Amanda Johann, com quem eu fazia acupuntura, que descobrimos a crise pela qual eu estava passando. A Amanda, acabou virando minha "psicóloga" e aos poucos, descobriu que eu não estava só deixando de almoçar, como eu simplesmente não estava comendo nada. 

Conversou com meus pais e explicou que isso se tratava de ANOREXIA. Que é quando a pessoa deixa de comer, fica cada vez mais magra e se acha cada vez mais gorda. 

Eureka! Era exatamente esse sentimento que eu tinha. Eu me achava uma obesa e esse sentimento só aumentava, em especial, cada vez que alguém me via e dizia, "nossa, como você está diferente"... 

Desse dia em diante, confesso que parece que foi muito mais difícil. TODOS a minha volta passaram a controlar se de fato eu estava comendo. Emagrecia e emagrecia... os exames que fiz com o clinico geral, graças a Deus, não chegaram a apontar nenhuma deficiência, apesar de ter emagrecido dos 65kg aos 45kg, com 167cm, em menos de dois meses... 

Comecei a fazer sessões de acupuntura quase que diariamente - acho que era mesmo para meus pais conseguirem saber se de fato eu estava melhorando, pois a Amanda era com quem eu mais conversava sobre meus sentimentos.   

Passei a ter momentos de alimentação BEM regrados, com uma lista de comidas específicas. Tive que reaprender a comer, pois meu corpo nunca tinha vontade de nada. A técnica que deu certo, foi comer em frente a televisão, ou com pessoas conversando comigo. Aí, me distraia e comia bem. 

No ano seguinte, quando estava então no 3ªº, mudei de colégio novamente, agora para um onde minha mãe trabalhava e poderia me acompanhar mais de perto. As regras de alimentação continuavam tão rigorosas quanto no início. Tinha que tomar café da manhã, no intervalo da aula, comer uma maçã e iogurte natural. Almoçar uma porção decente de comida, inclusive saladas, lanche da tarde, jantar e lanche da noite. Cortei qualquer tipo de porcarias da lista de alimentos (praticamente não tomava refrigerante). Fiquei por um bom tempo sem conseguir comer nada de queijo derretido (pizza com alguns queijos, nem em sonho), frituras ou comidas gordurosas. 

Com tudo isso regrado, meio mundo de olho em mim e meus hábitos, conseguindo ter amigos novamente, no final de 2002, estava com quase 50kg, peso esse que nunca mais ultrapassei. 

Atualmente, tenho sempre entre 50kg e 51kg. Não que eu faça dieta ou esteja com anorexia novamente. No entanto, o corpinho aqui, parece que sofre de um "autocontrole" e assim que começo a chegar nos 51 e algumas gramas, ele volta para os 48, 49kg.

Quem convive comigo, sabe que não é falta de comer. Aliás, faço exames periodicamente e não tenho nenhuma déficit de vitaminas ou coisa parecida. Simplesmente meu metabolismo ficou hiper acelerado.

Se amo meu corpo hoje?
Sinceramente não sou a mais apaixonada por ele não. Certamente esses padrões que tanto escutei na vida de "tem que ter onde pegar" acabam infernizando meu cérebro e fazendo com que eu deseje cada dia mais voltar para a academia e ficar uma "gostosa" e não tão magricela. Afinal, eu deveria estar pesando pelo menos 55kg... 

Então, a meta do próximo ano é chegar nos 55kg, com saúde, e me alimentando normalmente. Não suporto a ideia de tomar suplemento ou vitaminas. Apenas voltarei a fazer atividades físicas para ficar com um corpo que eu me ame mais. 

Quanto a anorexia, como me sinto hoje? 
Relativamente superada. Sempre me policio para comer bem. E quando percebo que estou boicotando alguma alimentação, volto para a técnica da televisão ou então, vídeos na internet, pois aí, quando vejo, comi todinho o prato que de comida, sem sentir a fome saciada antes do tempo.

Gurias,
Espero de coração que vocês nunca passem por isso. Com certeza eu só não cheguei a um patamar mais sério porque a Drª Amanda descobriu a tempo de eu ser tratada e eu tive amigos e familiares que lutaram comigo e me ajudaram a sair desse terror. Afirmo que não nada fácil e que sempre fica um resquício do que foi vivido. 

Agora, se por acaso, você se viu em meu lugar e sabe que está boicotando sua alimentação, procure ajuda. Nós, quando em crise, não somos capazes de superá-la sozinha e, infelizmente, as consequências da anorexia MATA. ;)

Foto: via
Agora, chega de escrever e bora comer algo! Já deu minhas 3h sem comida... 
Bjinhos, bjinhos,
Ana Laura

Obs.: Esse post faz parte da "Blogagem coletiva - Fora da caixinha" proposta pelo Rotaroots,para o mês de dezembro. Ainda não conhece o grupo? Clique aqui para maiores informações.

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